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Terapêutica Magnética - MANUAL TÉCNICO 53

                                                         Magnetismo Curativo - Alphone Bouvier

241. A verdadeira força curadora reside na igualdade e na continuidade da tensão nervosa, por isso os melhores magnetizadores são os que possuem essa força irradiante equilibrada em grau supremo.

As pessoas impressionáveis e muito sensíveis são, pois, sob esse ponto de vista, menos dotadas do que as pessoas calmas e justamente ponderadas; e assim é que a mulher, apesar de sua índole dulçorosa, cheia de bondade e moderação, apesar de sua profunda dedicação a tudo que sofre, é, graças à sua grande sensibilidade, geralmente menos apta para magnetizar do que o homem. Mais influenciada pelas impressões nervosas, mais escrava da imaginação e dos sentimentos, o temperamento irregular e algum tanto fantástico da mulher presta-se menos que o do homem, porque este possui a estabilidade e a igualdade de gênio indispensáveis ao magnetizador. Entretanto, apesar disso, é necessário não rejeitarmos a ação da mulher, porque a mãe, com justa razão, pode e deve ser considerada como o magnetizador nato de seus filhos; pelos seus ternos carinhos diários, ela entretém-lhe suavemente a harmonia da saúde e exerce sobre eles uma influência salutar, deixando lugar, em tempo oportuno, à intervenção paterna para desviá-la, nos casos urgentes, quando a criança fica doente; porque nestas circunstâncias graves, sua compleição delicada, sua ternura fácil de alarmar-se tira-lhe uma parte de seus meios, e é natural o concurso do pai, ao mesmo tempo mais forte e corajoso. 

Massagistas, parteiras, enfermeiras, damas dos hospitais, deveriam todas possuir noções sobre a arte de magnetizar, porque, em sua profissão, podem prestar grandes serviços por intervenção magnética às parturientes, aos recém-nascidos e a todos os infelizes doentes confiados aos seus cuidados. 

242. A mulher, pela sua delicadeza do tato que possui em grau supremo, é muitas vezes superior ao homem em certos tratamentos especiais, até ao momento em que é necessário atingir aumento de comunicação para obter-se uma crise final; nesta emergência, apesar de seu hábito e conhecimento dos processos magnéticos, as suas forças podem faltar; é possível que ela não tenha a calma e o sangue frio necessários para conduzir ou dominar uma evolução crítica; apesar deste inconveniente, que nunca pode constituir perigo real para o doente, os serviços diários que uma mulher sã e criteriosa pode prestar como magnetizadora compensam largamente esta insuficiência excepcional. Todas as vezes que tenho tido ocasião de encontrar-me com enfermeiras, aproveito-a para mostrar-lhes as vantagens do magnetismo na prática do seu ofício e insinuá-las com as minhas lições e o meu exemplo. Uma delas, a senhorita S., soube aproveitar-se tão bem das minhas lições, que chamada por alguns dias a uma localidade do departamento de Maine-et-Loire para cuidar de um doente, fez tanto benefício à família em cuja casa se achava e pelas circunvizinhanças, que adquiriu verdadeira reputação, e como os seus serviços fossem precisos para mais de um ano nessa localidade, ela não pôde, durante esse tempo, voltar a Paris. Entre as clientes que recorreram aos seus cuidados, estava uma jovem muito afetada desde longos anos por germes tuberculosos, apresentando sintomas críticos de tal modo imprevistos que a experiência da magnetizadora teve com esse fato uma prova um tanto perturbadora. A senhorita S., alarmada com o estado letárgico que inconscientemente provocara na paciente no decurso do tratamento, escreveu-me imediatamente a fim de procurar o recurso nos meus conhecimentos. Apressei-me em animá-la, indicando-lhe o caminho a seguir, e, graças às minhas instruções, ela pôde conduzir a bom êxito esse tratamento, que, depois de haver apresentado os mais extraordinários fenômenos, atingiu felizmente a uma cura completa, que maravilhou a quantos foram deles testemunhas. Eis aí, parece-me, um bom exemplo para mostrar quão grande é a eficácia do magnetismo, mesmo quando exercido por mãos inábeis e inexperientes. 

243. Em suma, os magnetizadores facilmente acessíveis aos efeitos reflexos magnéticos, e que forem de natureza impressionável, são antes sensitivos que curadores; sofrem a ação das correntes, em vez de impô-las.

Terapêutica Magnética - MANUAL TÉCNICO 52

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239. A ação magnética não produz somente efeitos sensíveis sobre a pessoa magnetizada, o próprio operador experimenta efeitos reativos muito perceptíveis dessa ação. 

“Se a Natureza, diz Bruno, dotou aquele que magnetiza de alguma delicadeza na sensibilidade de seus nervos, ele sentirá exteriormente uma parte dos movimentos irregulares que se derem na pessoa magnetizada. Estas sensações serão para ele indícios seguros do trabalho que a Natureza, ajudada pela sua ação, opera no doente.” Esse tato, que permite distinguir a marcha das correntes no organismo, passando simplesmente a mão, quer pela superfície, quer a alguma distância de um corpo, não é dado a todos: cada qual não é invariavelmente dotado dessa faculdade e não a possui permanentemente no mesmo grau; essa preciosa sensibilidade se desenvolve pelo exercício e a atenção, e quando se magnetiza deve-se estudar com cuidado todas as sensações manuais que se experimenta. Às vezes, um sopro quente projeta-se das mãos do magnetizado; esse calor nem sempre é da mesma natureza; tem gradações que o hábito ensina a distinguir: Se esse calor é seco e quente, é sinal de que no doente a circulação geral encontra obstáculo devido a uma tensão anormal dos nervos. Se o calor é brando e úmido, é sinal de que no doente a circulação está livre, e é um anúncio de interrupção próxima trazendo evacuações. Se, em vez de calor, o magnetizador sentir frio nas mãos, é indício certo de que no paciente há atonia e paralisia dos órgãos. Titilações e formigamentos nos dedos denunciam a existência de um excesso de bílis, de sangue acre, de um estado herpético. Produz-se às vezes um adormecimento das mãos e dores de câimbra nos dedos, que se propagam aos braços: é um indício de estagnações linfáticas, de obstruções nas funções digestivas e de acúmulo de viscosidades. O magnetizador experimenta às vezes estremecimentos nervosos, vibrações, abalos rápidos e fugitivos como choques elétricos: é sinal de um estado congestivo do sistema nervoso e de congestões fluídicas no paciente. 

É inútil insistir sobre o partido que se pode tirar dessa preciosa faculdade de percepção, que permite julgar do estado dos órgãos e da marcha das correntes. Estudando-se com atenção as sensações que se fazem experimentar a um doente e as que se experimenta em si mesmo ao magnetizar, adquire-se logo a melhor regra de exploração que pode guiar na conduta de um tratamento; pouco a pouco essas percepções intuitivas, arrastando a mão do operador sobre tal ponto do corpo do doente de preferência a um outro, determinam a escolha dos processos magnéticos mais próprios para combater as alterações mórbidas, das quais acaba-se por conhecer melhor a extensão, a sede e a natureza. 

240. Apreciando inteiramente em seu justo valor o socorro precioso que o tato magnético pode trazer ao operador, no ponto de vista do diagnóstico e do processo de um tratamento, cumpre entretanto não cair na exageração cometida por certos práticos que, adotando como base da sua terapêutica a regra seguinte “deixai que a mão caminhe na direção em que a corrente a leva”, deram ensejo ao que eles denominam o arrastamento da corrente; e criaram, em detrimento dos processos fisiológicos, uma espécie de magnetismo místico em que a sensibilidade é tudo. Estes sensitivistas pretendem perceber as dores e os males daqueles a quem magnetizam; quando eles se colocam em relação com um doente, fecham os olhos, concentram-se, e fixando a sua atenção, apalpam sucessivamente todas as partes de seu corpo; encontram deste modo as regiões afetadas, experimentam antecipadamente, de uma maneira muito dolorosa, as crises que o doente deve experimentar, e ao deixá-lo levam uma sensação muito persisten-te do seu mal, que muitas vezes só com dificuldade conseguem expelir. 

Não nego a existência desta sensitividade especial: somente acho-a mais nociva do que útil, porque, apesar de toda a força de projeção que possam possuir essas naturezas extra sensíveis, elas são forçosamente muito sujeitas às influências externas para exercerem em sua plenitude uma ação irradiante sobre os doentes. Alguns magnetizadores de notoriedade incontestável, entre outros o Barão Du Potet, partindo de idéias preconcebidas, formularam esta opinião: que, ao magnetizar, revolvem-se os princípios mórbidos do organismo, como se turvássemos a vasa de um pântano envenenado, e que assim, colocado num círculo de emanações insalubres, todo magnetizador corre o risco de contrair em todo ou em parte a enfermidade do seu doente. Em apoio desta asserção, Du Potet pretende que ele claudicava depois de haver tratado de um derrame coxo-femural; que se tornava um tanto mouco depois de haver tratado de surdos; tossia com os tísicos; sentia as dores artríticas dos gotosos; e os coléricos convulsionaram os seus intestinos. Essas impressões, felizmente, eram apenas efêmeras, por isso que o mestre é o primeiro a dizer que, em sua longa carreira de magnetizador, realmente nunca contraíra nenhuma moléstia de seus doentes e que constantemente possuíra uma força vital exuberante. Essa confissão nos prova que há muita imaginação nos fatos que expusemos. É inútil protestar contra afirmações que tendem a deixar acreditar que se pode adquirir moléstia magnetizando-se; essa crença presta-se a afastar da prática do magnetismo certos espíritos timoratos e fracos. Uma observação atenta e o estudo da marcha das correntes não deixam dúvida algu-ma a esse respeito e demonstram que a transmissão das moléstias pela magnetização é apenas um mito.

Terapêutica Magnética - MANUAL TÉCNICO 51

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235. Nas crianças em quem o movimento natural não é ainda contrariado pelos maus hábitos de uma vida mal regulada, a ação magnética é mais notável, mais pronta e salutar que entre as pessoas adultas; e o mesmo se dá com os animais. As crianças e os animais são geralmente muito sensíveis ao magnetismo e obtém-se sobre eles curas muito rápidas. 

Trouxeram-me um dia uma criança de três ou quatro anos, cujo estado doentio inquietava muito os pais; era o filho do professor de música de meu filho. Estava pálido, triste, já havia muitos dias que não digeria nada, seu olhar era fixo e sem expressão, e uma grande rigidez da coluna vertebral dava-lhe uma contratura dos rins, do pescoço e da cabeça, impedindo-o de equilibrar-se nas pernas e de dar um passo. Tomei a criança em meus joelhos, fiz-lhe imposições e passes, insuflações quentes nas costas e na nuca e, em alguns minutos, um quarto de hora apenas sob esta ação vivificante, a criança pareceu renascer, os olhos recuperaram a sua animação habitual, os músculos distenderam-se, moveu a cabeça, e quando a pus de pé, começou a caminhar pelo quarto para receber um doce que se lhe mostrava à distância. Esses poucos minutos de magnetização bastaram para dominar um estado mórbido inquietador, que já durava há muitos dias e que cessou como por encanto; porque, desde essa noite, o apetite, a alegria, o funcionamento regular do organismo recomeçaram como se a criança nunca tivesse estado doente. 

Este é um exemplo entre mil: mas não há uma enfermidade da infância, febre, diarréia, constipação, vômitos, convulsões, moléstias eruptivas, tosse, coqueluche, que não possa ser imediatamente sustada por uma ou duas magnetizações feitas em tempo oportuno, antes que essas lutas ou esses desvios de crescimento não tenham tido tempo de tomar uma feição séria. 

Combati desse modo a pé firme todos os males aos quais meu filho, como toda criança, teve de pagar seu tributo, e evitei assim toda complicação, travando-os em seu desenvolvimento. 

Deleuze, Aubin Gauthier, o Dr. russo Brosse e o Dr. Bavaro Muck citam grande número de casos desse gênero, cuja relação se encontra nos Annales Magnétiques. Mais recentemente, numa brochura de que se falou muito, o Dr. Liébault, de Nancy, relatou grande cópia de experiências feitas por ele sobre crianças com menos de dois anos, experiências concludentes, que não só dão um exemplo admirável da ação puramente física do magnetismo e de sua grande eficácia nas moléstias da infância, como também provam a prontidão com que esta ação se exerce sobre as crianças de tenra idade. 

236. É preconceito acreditar-se que as pessoas de compleição delicada ou enfraquecidas pelas moléstias crônicas são mais sensíveis que as outras; geralmente, não são os indivíduos edemaciados ou de temperamento nervoso que dão mais depressa indícios de sensibilidade magnética; pelo contrário, são antes as naturezas enérgicas e vivazes que melhor correspondem aos movimentos de reação que se procura produzir pela magnetização. 

Na maior parte dos indivíduos nervosos e nas moléstias que mais especialmente afetam o sistema nervoso, onde a prostração e a anemia alternam com uma grande superexcitabilidade, o magnetismo atua na maioria dos casos, sem produzir efeitos aparentes; e se, às vezes, com o correr do tempo, o magnetismo consegue triunfar dessas perturbações profundas da enervação, acontece freqüentemente que se obtém a produção de fenômenos singulares que não são sempre seguidos dos resultados curativos que dele se espera. 

Em suma, seria erro acreditar-se que as afecções nervosas caem, mais especialmente que as demais moléstias, sob a competência do magnetismo; a idéia falsa que se fez e ainda se faz do papel fisiológico do magnetismo e de seus efeitos curadores contribui grandemente para entreter esse preconceito, que a observação e a experiência deveriam ter há muito tempo desarraigado. 

237. Há igualmente uma opinião segundo a qual a sensibilidade magnética e, consecutivamente, o efeito curador dependem sobretudo de certas analogias de relação entre o magnetizador e o paciente; é evidente que se deve levar em conta influências que resultam dos caracteres, dos temperamentos e dos meios: os climas, as estações, o regime, os hábitos, a idiossincrasia têm efeitos incontestáveis num tratamento, e é muito admissível que certas pessoas sejam mais aptas que outras para produzirem certos efeitos e curarem determinadas moléstias. 

Não é duvidoso que os corpos são mais ou menos condutores das correntes e, por conseguinte, mais ou menos irradiantes; que as trocas magnéticas entre os corpos variam portanto até ao infinito, mas isso é uma questão de menor importância, em que não devemos deter-nos por muito tempo. 

Em tese, todos os doentes são sensíveis à ação magnética, e o são mais ou menos rapidamente; quando não se é bem sucedido, provém isto mais por uma falta de perseverança no tratamento ou da gravidade da desordem produzida no organismo por uma moléstia antiga, do que devido a qualquer outra causa. 

238. A ação magnética pode ser geral ou parcial. Ela envolve portanto todo o organismo ou só se dirige a uma das suas partes; um doente, conservando-se inteiramente em seu estado normal e gozando plenamente de suas faculdades físicas e intelectuais, pode ver de repente um dos seus membros afetado de rigidez muscular, paralisia ou insensibilidade; ele já não tem nenhuma ação sobre esse membro, que, envolvido de algum modo pela corrente magnética, não lhe pertence enquanto esta não lhe foi retirada, e essa obrigação de retirá-la do paciente ou do membro sobre o qual a ação magnética convergiu é incontestavelmente uma das melhores provas do efeito puramente físico dessa ação. (144, 145, e 148)

Terapêutica Magnética - MANUAL TÉCNICO 50

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Da sensibilidade magnética

231. A magnetização produz efeitos puramente físicos; o doente cuja mão seguramos na posição da relação por contato (49) experimenta geralmente os efeitos seguintes; umidade na palma das mãos, titilações nos dedos, formigamentos; a sensação encaminha-se às vezes aos braços, aos ombros até a cabeça, ou vai atacar o epigástrio, e há então irradiação por todo o corpo, que determina leves calafrios, bocejos, aos quais sucede a dormência dos membros e do cérebro. 

Em uns, o pulso diminui, o rosto empalidece, as pálpebras oscilam e fecham-se, os queixos e os membros se contraem, há sensação de frio; em outros, o pulso se acelera, sobem ao rosto fugachos que o avermelham, o olhar aviva-se, há transpiração, acessos de riso ou pranto. Quando esses efeitos parecem querer acentuar-se, podemos, se se tem em vista obter-se o sono magnético, prolongar a ação que os determina; mas se não quisermos o sono (o que deve ser o caso mais habitual, por isso que ele não é necessário ao tratamento), apressemo-nos em romper a relação, abandonando as mãos do sonâmbulo e fazendo-lhe alguns passes à distância. (100 a 104) 

232. Todos os sonâmbulos não são suscetíveis de sentir ao mesmo tempo e no mesmo grau os efeitos magnéticos: há tantas gradações nas sensações como há diferenças entre os organismos; não somente a sensibilidade varia conforme os sonâmbulos, mas é mais ou menos desenvolvida na mesma pessoa em razão das disposições de momento. Há doentes sobre os quais se atua em dois ou três minutos; em outros é necessário muitos dias e em alguns muitos meses. (Koreff, Deleuze) Tal pessoa, insensível enquanto goza saúde, experimenta efeitos evidentes em casos de moléstia. (Aph. 210, Mesmer) Tal outra, que em uma moléstia grave não experimentava nenhum efeito aparente, torna-se muito sensível em uma leve indisposição. (Deleuze) 

Há doentes nos quais os efeitos vão sempre aumentando; outros que sentem desde o primeiro dia tudo quanto experimentaram no decurso de um longo tratamento; outros, finalmente, que, depois de manifestarem sintomas notáveis, cessam de manifestar de repente a menor impressão. (Mes-mer, Deleuze, Aubin Gauthier) 

233. Acontece freqüentemente que o magnetismo restabelece a harmonia das funções de que acabamos de falar, isto é: tendência à transpiração, sensação de frio ou de calor, espasmos, movimentos musculares, contrações, dormência, displicência, formigamentos, bocejos, etc.; e só o percebemos ao efeito produzido pela melhora da saúde.

O magnetismo nem sempre se manifesta, pois, por efeitos que anunciam a sua ação; e procederia mal quem desanimasse muito depressa, ou declarasse que o magnetismo é impotente só porque ao cabo de oito ou quinze dias, algumas vezes dois meses ou mais, não tivesse produzido nenhum efeito aparente. (Deleuze, Koreff, Aubin Gauthier) 

234. As pessoas que parecem mais rapidamente sensíveis à ação magnética são as que levam uma vida simples e frugal, que não são agitadas pelas paixões, que não abusaram dos narcóticos e dos minerais, e que não fazem uso imoderado dos perfumes de toucador. Os hábitos da alta sociedade, a vida agitada da política e dos negócios, as preocupações morais, o abuso dos anestésicos e dos narcóticos, os excessos da mesa e das bebidas alcoólicas ou fermentadas, diminuem cada vez mais a receptividade magnética; é por isso que os campônios que vivem com toda a simplicidade e ao ar livre, sem terem habitualmente recorrido às excitações artificiais dos prazeres da cidade e da terapêutica moderna, têm mais probabilidade de sentir com maior facilidade e rapidez que os outros os efeitos da ação magnética, no entanto os alcoólatras e os morfinomaníacos são quase insensíveis.

Terapêutica Magnética - MANUAL TÉCNICO 49

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O Som 

227. Toda emissão de som favorece a ação magnética, com a condição, que os sons sejam harmônicos e não venham surpreender o sonâmbulo com um ruído dissonante de um choque. 

O vento, o farfalhar das folhas, o murmúrio dum regato, a queda duma cascata ou de um repuxo, auxiliam a ação magnética e concorrem para o sono magnético, se o doente for predisposto a isso. (Mesmer, Aph. 164) 

228. A música, principalmente quando melodiosa e suave, tem uma influência enorme sobre os nervos, produz muitas vezes crises úteis e o êxtase; a sua potência expansiva pode, em certos casos, ajudar a resolver favoravelmente os mais graves estados críticos. 

Tive muitas vezes ocasião de averiguar a benéfica influência da música e principalmente do canto, nas crises produzidas pelos tratamentos magnéticos. Tive especialmente uma doente muito interessante, a senhorita Luiza C., afetada de atrofia muscular progressiva, em quem o tratamento determinava crises violentas bem freqüentes, e que só a música conseguia dominar. Era bastante uma de suas amigas, que assistia às sessões e possuía excelente timbre de voz, começar a cantar em voz baixa a bela romanza de Paulo e Virgínia “O pássaro se vai”, para que imediatamente toda a exaltação diminuísse e a calma se restabelecesse. Uma profunda interrupção se dava, lágrimas inundavam o seu rosto, e a jovem doente, subitamente acalmada, seguia numa espécie de êxtase todas as inflexões da voz da sua amiga, que parecia conservá-la numa magia invencível. 

229. Qualquer ruído ou som brusco e violento, tudo o que tende, em uma palavra, a surpreender o sonâmbulo, é uma causa de perturbação que pode apresentar perigo. Esses meios, em todo caso, nada têm de curativos e devem ser prudentemente afastados do tratamento; as pancadas de tan-tan, que mergulham brutalmente os sonâmbulos no estado cataléptico, só serviram para maravilhar a multidão por efeito teatral preparado. Em geral, os sonâmbulos assimilam muito melhor os sons harmônicos do que os ruídos; na maioria, ficam completamente estranhos aos ruídos que os cercam e percebem sons harmônicos os mais longínquos. 

Vi sonâmbulos não se perturbarem de nenhum modo com as conversações, entradas e saídas de pessoas, portas que se abriam e fechavam, gritos, latidos de cães, e de repente saírem de sua letargia para prestarem atenção aos sons duma música ou de cantos que nenhum dos assistentes percebia desde logo, por causa da grande distância. 

230. Podem-se tirar muito bons efeitos da magnetização acústica, num tratamento particular; porém, esse gênero de magnetização não pode ser empregado no tratamento em comum, porque certos doentes experimentariam com ele um benefício incontestável, enquanto que outros ficariam profundamente perturbados. 

Os instrumentos mais favoráveis ao desenvolvimento da ação magnética são, depois da voz humana, a flauta, a harpa, a cítara. 

Mesmer, em suas sessões, empregava frequentemente esta última. Diversos magnetizadores pretendem que os sons que partem de um instrumento magnetizado fazem mais efeito num doente, do que os de um instrumento que não o esteja; mas nunca tive ocasião de fazer experiências a esse respeito.

Terapêutica Magnética - MANUAL TÉCNICO 48

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Alimentos, metais e objetos diversos magnetizados 

223. Qualquer objeto pode ser magnetizado e armazenar os eflúvios magnéticos, a fim de servir de intermédio às magnetizações indiretas; empregam-se para isso tecidos, alimentos, metais, etc. 

224. Magnetiza-se um lenço, um pedaço de flanela, um retalho de algodão, soprando quente sobre eles e conservando o tecido desdobrado na mão esquerda, enquanto com a mão direita se fazem passes ou apresentam-se os dedos em ponta. 

225. Quando os doentes manifestam repugnância por certos pratos ou bebidas que lhes poderiam ser úteis, ou porque o estômago esteja preguiçoso e digira mal, magnetizam-se todos os alimentos a fim de facilitar-lhes a ingestão e digestão. Para magnetizar os alimentos sólidos, apresentam-se os cinco dedos reunidos em ponta alguns centímetros acima do vaso que os contêm, e termina-se a operação por alguns passes. 

226. Quanto aos objetos metálicos, ainda que bons condensadores, não podem ser de uso corrente como a água, o vidro e os panos; por isso que, possuindo propriedades especiais, por si mesmos influenciam mui diversamente o organismo em razão das idiossincrasias e dos temperamentos.

O contato do ferro é geralmente insuportável a todos os sonâmbulos; este contato os inquieta, irrita e queima. O ouro, que por si mesmo possui uma virtude tão calmante, dissipa as dores locais e resolve as contrações, e torna-se para certos sensitivos um excitante que provoca contrações e espasmos.

Terapêutica Magnética - MANUAL TÉCNICO 47

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Vidro magnetizado 

220. Depois da água, é o vidro o corpo que melhor se magnetiza e que melhor pode preencher o papel de intermediário entre o magnetizador e o doente. Os sonâmbulos têm para com o vidro ou uma tendência, ou uma repulsa notável. 

Em geral, entretanto, procuram-no com muito açodamento como se fora a mão do magnetizador, e justificam este aforismo do Dr. d'Eslon: uma garrafa colocada no epigástrio faz o mesmo efeito que a mão do magnetizador. (Aphor 24) 

221. O vidro parece possuir propriedades inteiramente especiais de condensação e, de todos os corpos inertes, é ele que atua magneticamente sobre o organismo com maior intensidade. 

Quando se quer concentrar as correntes e atuar com mais atividade sobre um órgão afetado, magnetizam-se campânulas, placas ou bocais de vidro para cobrirem a parte doente. 

Nas moléstias de olhos, magnetizam-se os vidros das lunetas ou os óculos. Grande número de magnetizadores, entre os quais o Sr. de Puységur, o Dr. Roulier e Aubin Gauthier, preconizaram o emprego de medalhões de vidro, que eles magnetizavam e faziam trazer suspensos numa fita ao pescoço dos doentes. 

A aplicação dessas placas de vidro sobre o estômago e sobre o coração era para eles de um grande auxílio a fim de acalmarem as dores, as palpitações e desfazerem obstruções. Haviam notado que o vidro magnetizado prende-se à pele, enquanto aquele que não é magnetizado deixa de lhe aderir. 

222. Magnetiza-se uma placa ou um disco de vidro soprando quente por cima e fazendo passes em sua superfície; faz-se também imposições, cercando o disco com os cinco dedos de uma das mãos, e colocando os cinco dedos da outra mão, reunidos em ponta ou em feixe. Magnetiza-se um bocal ou qualquer outro corpo oco, introduzindo nele uma das mãos aberta, de modo a sustentá-lo sobre a ponta dos cinco dedos, e com a outra magnetiza-se por meio de passes. 

Magnetizam-se lunetas colocando o polegar sobre o vidro e, deixando-o aí apoiado por alguns instantes, faz-se em seguida passes ao longo dos ramos, do centro para cada extremidade.

Terapêutica Magnética - MANUAL TÉCNICO 46

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Água magnetizada 

216. A água é, de todos os corpos inertes, o que mais facilmente se magnetiza e que também comunica melhor a energia de que é portadora. A água, por si mesma, já é, como o ar, a luz e o calor, um dos elementos primordiais da nossa vida planetária; magnetizando-a, aumenta-se consideravelmente a energia das suas propriedades vitais. 

Na opinião de todos aqueles que se ocupam de magnetismo sob o ponto de vista curador, a água magnetizada representa um papel muito importante na medicina magnética; de todas as magnetizações intermediárias é a que produz efeitos mais surpreendentes e mais úteis à saúde. Entre os acessórios dos tratamentos magnéticos, eu encaro a água magnetizada como um dos mais preciosos; empreguei-a muitas vezes, e com a maior vantagem. (Dr. Roullier, 1817) A água magnetizada é um dos agentes mais poderosos e salutares que se podem empregar; vi-a produzir efeitos tão maravilhosos que eu receava iludir-me, e só pude acreditar depois de milhares de experiências. 

Os magnetizadores não fazem muito uso da água magnetizada; entretanto ela lhes pouparia muitas fadigas, dispensariam os seus doentes de vários remédios e acelerariam a cura se dessem a esse meio todo o valor que merece. (De-leuze) 

217. A água magnetizada deve ser empregada como acessório de todo tratamento para auxiliar a ação magnética direta. Receita-se como bebida nas refeições ou nos intervalos; emprega-se também em banhos e loções. 

218. Magnetiza-se a água da maneira seguinte, conforme os recipientes que a contêm: Para magnetizar um copo d'água, toma-se este com a mão esquerda, e com a direita faz-se imposições e passes na superfície do líquido e ao longo das paredes do copo. Para magnetizar uma jarra ou uma garrafa d'água, deve-se colocá-la desarrolhada na mão esquerda, e fazer com a mão direita imposições e passes na entrada do vaso e ao longo de suas paredes; se o recipiente for muito grande, de modo que não se possa tê-lo entre as mãos, coloca-se o mesmo sobre uma mesa diante de si, envolvendo-o do melhor modo que for possível com os dedos abertos, e faz-se em seguida imposições e passes com as duas mãos na entrada do recipiente e ao longo das suas paredes. 

Para magnetizar um banho, passa-se a mão aberta pela superfície da água, duma extremidade à outra da banheira, mergulhando-a, em seguida, durante alguns minutos; depois, estende-se as mãos fora da água, para o centro, fazendo passes sucessivos muito lentos sobre a superfície da água. Proporciona-se o tempo da magnetização ao volume de água e ao tamanho do recipiente. 

São necessários de 2 a 5 minutos para magnetizar um copo ou uma garrafa, e cerca de 10 minutos para magnetizar um banho. 

219. Os efeitos produzidos pela água magnetizada são múltiplos, às vezes são até absolutamente opostos; alternativamente tônica ou laxativa, a água magnetizada fecha ou abre as vias de eliminação conforme as necessidades do organismo, pois toda a magnetização direta ou indireta tem por fim o equilíbrio das correntes e, conseguintemente, o das funções. O efeito será tônico, quando houver excesso nas funções de eliminação; será laxativo, quando as funções de condensação forem exageradas. 

A água magnetizada possui a preciosa vantagem de substituir qualquer espécie de purgantes e de agir naturalmente nas constipações mais recentes. Tomada regularmente, em jejum e nas refeições durante muitas semanas seguidas, acaba quase sempre restabelecendo o equilíbrio das funções e triunfando da inércia intestinal mais rebelde. Por esse meio, restabelece-se o curso normal das fezes em pessoas impossibilitadas que permaneciam no leito há muitos anos, sem que conseguissem defecar senão por meio de purgantes e clisteres. Algumas vezes, os efeitos purgativos da água magnetizada são muito pronunciados. 

No tratamento de um reumatismo articular agudo, não somente as bebidas magnetizadas fizeram cessar uma constipação renitente, mas ainda provocaram trinta e uma dejeções abundantes e infectas, em menos de cinco dias. Longe de enfraquecerem o doente, elas trouxeram uma melhora tal em seu estado, que ele pôde levantar-se, apesar de não ter tomado alimento durante os dez dias que esteve no leito. 

No tratamento de um tumor do ouvido, complicado de uma hemiplegia da face, a água magnetizada produziu, no espaço de dezoito dias, três a oito evacuações diárias: estas dejeções líquidas não fatigaram de maneira alguma o doente, e livraram-no definitivamente do corrimento purulento do ouvido, primeira causa da hemiplegia, que desapareceu por sua vez cinco meses depois. 

Vi muitos doentes, cuja saúde tinha sido completamente arruinada por diáteses graves, recuperarem a saúde por uma série de emissões alvinas abundantes e críticas que expulsavam do organismo todos os seus elementos mórbidos; um deles, graças ao uso da água magnetizada, teve durante três anos, de três a cinco evacuações em 24 horas. 

Se a água magnetizada tomada internamente favorece as digestões e secreções, impede o retorno dos acessos nas febres intermitentes e pode reconstituir o organismo por completo, como se fora o melhor dos fortificantes; o seu emprego externo em loções e compressas não tem menos efeitos soberanos, para as feridas, os dartros, as queimaduras, as erisipelas e as moléstias de olhos.

Terapêutica Magnética - MANUAL TÉCNICO 45

                                                           Magnetismo Curativo - Alphone Bouvier

Da magnetização dos corpos inertes e dos acessórios que se podem empregar para as magnetizações indiretas

211. A ação magnética não se estende somente aos animais e às plantas; os próprios corpos inertes podem ser influenciados. Apesar da realidade desse fato, que a experiência demonstra, uma asserção dessa ordem pode, à primeira vista, parecer contestável, por isso que, se nos dispomos a admitir muito facilmente uma troca de radiações entre os corpos dotados de vida, não vemos absolutamente, a priori, que relações possam existir entre a natureza morta e a natureza viva. Isto procede da idéia que se faz acerca da inércia introduzida na física para explicar o estado negativo e a imobilidade aparente da matéria, velando o conhecimento do movimento universal que mantém o mundo inteiro sob a ação de uma mudança lenta, imperceptível aos nossos sentidos, porém constante. 

Foram necessários trabalhos modernos sobre o polimorfismo e as cristalizações, para pôr-se em evidência essa verdade. Os corpos se nos apresentam então unidos entre si, não pela atração, como se havia suposto, mas por uma espécie de coesão recíproca devida a um equilíbrio coletivo. 

Assim mantidos em suas relações mútuas e constantes, esses corpos estão imersos numa espécie de oceano de movimento serial onde, sob as aparências simuladas de atrações e de repulsões, nascem, sob a influência de dispersões e condensações sucessivas, correntes que, longe de se deterem nas superfícies que banham, as envolvem e penetram. 

A matéria, perdendo, desde então, as propriedades negativas que a inércia lhe empresta, exerce um papel eminentemente ativo: ao movimento ambiente que a cerca e comprime, ela opõe resistências proporcionais aos seus graus de condensação; não é mais uma entidade passiva, simples joguete das forças exteriores coligadas, mas sim uma força virtualmente ativa em antagonismo constante com as outras forças. Sob a influência das correntes que nascem desse antagonismo, tudo se anima na natureza, a separação estabelecida entre o mundo dos corpos vivos e o dos corpos sem vida cai por si mesma, e a unidade se faz na vivificação universal da matéria hierarquizada e na união das forças coligadas para um mesmo fim. Desaparece a inércia, para dar lugar a uma série infinita de todos os matizes de condensação, e não é mais sob o ponto de vista de sua materialização que cumpre considerar os corpos, mas sob o da faculdade que eles possuem de condensar o movimento em proporções variáveis. 

212. Não existem, propriamente falando, corpos inertes na natureza; todos os corpos são, antes de tudo, condensadores de movimento, e é sob esse aspecto que eles são influenciáveis pelas nossas radiações. 

213. Os corpos magnetizados auxiliam admiravelmente num tratamento os efeitos da magnetização direta: são excelentes intermediários. Magnetizam-se corpos de qualquer natureza, a fim de empregá-los como acessórios: a água, os tecidos, a madeira, os metais, a cera, o vidro são igualmente bons condensadores das correntes. 

214. As magnetizações não mudam em coisa alguma a natureza intrínseca dos corpos; aumentam somente as suas propriedades irradiantes. Ativando a energia das correntes que os atravessam (14), estendem-se as propriedades dos corpos, assim como restabelece-se neles as que um acidente lhes tivesse feito perder. 

215. Os corpos submetidos à nossa ação magnética restituem, pelo contato, uma parte da energia transmitida; porque a magnetização, dobrando a sua faculdade condensadora ou a sua corren-te centrípeta, põe em ação outro tanto de sua faculdade dispersiva ou da sua corrente centrífuga. 

É essa perpétua tendência ao equilíbrio entre as funções de condensação e as de dispersão que permitiu considerar indistintamente todos os corpos da natureza como reservatórios da força magnética. (12) Como nenhuma modificação aparente se manifesta nos corpos quando se os magnetiza, seria difícil verificar o aumento das propriedades destes corpos produzido pela magnetização, se não houvesse um meio de exame. Esse meio foi fornecido pelos sensitivos; os pacientes sensíveis sabem muito bem, no estado magnético, distinguir um objeto magnetizado de outro que o não é. 

Eis aqui vários exemplos: Eu tinha um sonâmbulo de extrema sensibilidade; bastava-me magnetizar um objeto qualquer, uma cadeira, um livro, um papel, e deixar esse objeto misturado com outros da mesma espécie; nunca o meu sonâmbulo deixou de encontrar o objeto magnetizado no meio daqueles que não o estavam. Se, estando acordado, o acaso levava-o a tocar um objeto que eu houvesse magnetizado fora de sua presença o simples contato desse objeto punha-o instantaneamente no estado magnético. Muitas vezes repeti essa experiência, e sempre com bom resultado. Antes da chegada do sonâmbulo, eu magnetizava um objeto qualquer visível sobre a mesa ou sobre a lareira, uma caixa de fósforos, por exemplo; toda vez que, por inadvertência, o sonâmbulo tocava no objeto magnetizado ele girava sobre si mesmo e caia instantaneamente em sono magnético, e o efeito era fulminante! 

No estado sonambúlico, os sensitivos vêem sempre a água magnetizada fosforescente. Um dia colocaram uma garrafa d'água magnetizada sobre a mesa, ao lado de uma pessoa que eu tinha por costume pôr em estado magnético. Era uma pessoa muito fácil de ser influenciada: a simples vizinhança dessa garrafa magnetizada bastou para adormecê-la, e quando tirei-a desse estado, foi necessário remover a garrafa de cima da mesa para que se não reproduzisse a mesma cena. Alguns dias antes, o simples contato de um anel de ouro magnetizado, que eu havia passado para o dedo dessa pessoa sem preveni-la do efeito que podia produzir-se, instantaneamente mergulhara-a no sono magnético. 

Esses efeitos inopinados, produzidos por um objeto magnetizado sobre sonâmbulos não prevenidos, dão a prova mais palpável da ação inteiramente física do magnetismo.

Terapêutica Magnética - MANUAL TÉCNICO 44

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209. A ação magnética sobre as plantas não é menos manifesta do que sobre os animais: pode-se curá-las quando estão doentes, apressar-lhes o crescimento e a florescência; numerosos fatos apresentam-se em apoio do que avançamos. 

No ano 1841, em Caen, La Fontaine possuía dois gerânios, um dos quais cheio de seiva, e o outro quase sem vida. Começou a magnetizar este último, que não somente recuperou vitalidade, mas acabou por cobrir-se de largas folhas e crescer mais do que aquele que não estava doente. 

O Sr. Dr. Picard, horticultor em São Quintino, fez uma série de experiências sobre enxertos de roseiras. No dia 5 de abril, sobre seis enxertos feitos nas mesmas condições, ele abandonou cinco ao seu desenvolvimento natural, e magnetizou o sexto; a roseira magnetizada deu, em 10 de março seguinte, dois belos rebentos de 40 centímetros, encimados por dez botões, enquanto que os outros tinham apenas rebentos de 5 a 10 centímetros e os botões estavam longe de despontar. O enxerto magnetizado produziu, de 5 de abril a 26 de agosto, em duas florescências, maio e julho, dezoito magníficas rosas e forneceu 38 mudas, das quais muitas deram flores, enquanto que no mesmo período os enxertos não magnetizados só floresceram uma vez, em fins de junho, e deram ramos que atingiram apenas a um desenvolvimento de 15 a 20 centímetros. O Sr. Picard experimentou igualmente a ação magnética sobre o desenvolvimento das frutas: escolheu, sobre um pessegueiro escorado, um ramo onde havia três pêssegos; magnetizou-os todos os dias por espaço de cinco minutos, e no dia 24 de agosto estavam em perfeita maturação, havendo atingido um desenvolvimento de 21, 22 e 24 centímetros de circunferência, quando os outros frutos da árvore só amadureceram em 25 de setembro e atingiram no máximo a 14 ou 15 centímetros. Tais fatos não precisam de comentários. 

Eu mesmo tive frequentes ocasiões de averiguar a benéfica influência que podemos exercer por nossa radiação sobre as plantas; conservei em meu aposento plantas verdes, fênix ou palmeiras, durante dez ou doze anos, no mais perfeito viço; tratei, no parapeito de minha janela, de sálvias (plectrantus fructcosus), que atingiram dimensões inteiramente desusadas, produzindo verdadeiros arbustos com mais de 1,50 m de altura e 3 metros de ramagem, não porque eu as magnetizasse todos os dias, mas sim devido aos meus cuidados constantes. 

A planta é um ser vivo que exige, do mesmo modo que o animal e todos os seres da natureza, não somente os elementos necessários à conservação da sua vitalidade, ar, água, calor, luz, como também afeição. Sim, a planta, tal como o próprio animal, não se apraz na solidão: carece de quem a cuide, de quem a toque e se ocupe dela; vive em grande escala das nossas emanações irradiantes, e na maioria dos casos morre no abandono e no isolamento, quando a arrancamos do seu estado natural, por isso que a não associamos suficientemente à intimidade do nosso lar. Pode-se bem fazer uma idéia do efeito produzido por nossa ação irradiante sobre as plantas, atuando sobre bulbos de tulipas e de jacintos. Magnetizando todos os dias, por espaço de cinco ou dez minutos, a água dos vasos em que mergulham as raízes desses tubérculos, consegue-se dar à sua seiva uma tal energia vital, que a haste e flor tomam em pouco tempo aparências extraordinárias. 

Um dos meus amigos tinha sobre a lareira dois bulbos de jacintos cor de rosa, que acabavam apenas de germinar e estavam em grau de igualdade no desenvolvimento; fizemos a experiência de magnetizar um, deixando que o outro se desenvolvesse livremente. A planta magnetizada excedeu muito a sua companheira e atingiu uma altura de mais de cinquenta centímetros. Para evitar que a flor não fizesse cair o vaso, fomos obrigados a dar-lhe um ponto de apoio sobre o espelho da lareira. Este singular resultado, que comuniquei a um dos meus amigos, empregado numa repartição ministerial, induziu-o a repetir a experiência: trouxe bulbos de jacintos para o escritório e começou a magnetizá-los. Muitos dos seus companheiros imitaram-no. Em poucos dias, o campo de experiência alargou-se, e a referida repartição (que não era a de agricultura) tornou-se em breve uma sucursal das estufas da cidade; em todos os escritórios entregaram-se os empregados à cultura do bulbo de tulipa. 

210. Não seria demasiado insistirmos sobre os numerosos fatos que acabamos de citar; porque, fornecendo-nos a prova da ação real do homem sobre os animais e as plantas, demonstram bem que essa ação puramente dinâmica e física, depende da faculdade natural que o homem possui de regular, condensar, e projetar por seu poder de volição, as suas radiações magnéticas ou nêuricas sobre todos os corpos que o rodeiam e de modificar-lhes as correntes (24). Além disso, mostram-nos a unidade do princípio universal que une na natureza todos os corpos entre si.

Terapêutica Magnética - MANUAL TÉCNICO 43

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Da magnetização dos animais e das plantas

206. Vimos (194 e 203) que a nossa influência irradiante se exerce sobre os nossos semelhantes e sobre nós mesmos, mas não se detém aí a nossa ação magnética; ela se estende igualmente aos animais e às plantas. (16) 

Haurindo nossas correntes a sua origem na grande corrente universal que imprime a todos os seres organizados os seus princípios vivificantes, a unidade vital da natureza fazendo com que tudo palpite sob a influência duma mesma vibração, não é para admirar que os espíritos vitais dos animais e das plantas recebam um impulso das nossas correntes e que as propriedades desses corpos possam aumentar-se ou restabelecer-se sob a influência da nossa ação magnética. (14 e 16) Se devemos ser reconhecidos à natureza por ela nos ter outorgado o precioso dom de curar os nossos semelhantes, devemos igualmente agradecer-lhe por nos haver permitido estender os nossos benefícios aos animais domésticos, esses humildes servos que nos ajudam em nossos trabalhos diários e cuja afeição dedicada enche muitas vezes o vácuo dos nossos afetos e solidão do nosso lar. 

Não será também para nós uma grande satisfação poder conservar em todo o seu verdor e viço de beleza essas joviais companheiras das nossas alegrias e tristezas, essas plantas delicadas cujas folhagens e flores constituem o ornato dos nossos jardins e dos nossos salões, e que, em virtude de uma nova moda, ocupam presentemente um lugar tão elevado em nossa vida desde o berço até ao túmulo? Quando mesmo em nosso coração não encontrássemos ao lado do amor da humanidade um lugar modesto para os animais e as plantas, o interesse de nossa bolsa nos exigiria poupar e prolongar a existência dos seres que nos são ao mesmo tempo agradáveis e úteis, e cuja substituição não deixa de ser para nós uma despesa onerosa. “Aliviar um ser que sofre, qualquer que ele seja, diz Deleuze, é sempre um bem, mas curar os animais é, além do benefício que se lhes faz, prestar também, muitas vezes, um grande serviço aos homens.” 

Aubin Gauthier cita numerosos casos em que alcançou resultados surpreendentes. Uma cachorra ainda nova acabara de parir, e tendo uma inflamação na cabeça, por causa da lactação que não se havia estabelecido, sofria horrivelmente, apresentando os olhos inchados e quase fechados. Logo no dia seguinte, depois de três sessões, os olhos abriram-se perfeitamente e as dores se haviam acalmado; no fim de três dias, o animal achava-se restabelecido. Uma outra cachorrinha, que também acabara de parir, tinha a cabeça mais avolumada que o corpo, gania continuamente e não mais dormia: no prazo de três ou quatro dias, uma evacuação extraordinária se manifestou, cessaram as dores, voltou o sono, e o animal recuperou toda a sua alegria. Os cavalos e as vacas não são menos acessíveis ao magnetismo que os cães. 

Aubin Gauthier refere que, numa circunstância crítica, obteve sobre certa vaca um verdadeiro êxito. Ela havia comido trevo molhado; sabe-se quais as consequências graves que trazem esse fato: a vaca inchava prodigiosamente e não havia ali quem, em tal emergência, pudesse socorrê-la. Ele julgou dever magnetizá-la, e no fim de vinte minutos o animal expeliu gazes, depois descargas flatulentas, que trouxeram como resultado o restabelecimento de sua saúde. Os gatos, muito amantes de carícias, prestam-se muito especialmente à magnetização, voltam-se e retorcem-se sobre si mesmos, colocam-se de modo a receberem melhor a nossa ação, que apreciam imensamente. 

Eis um exemplo interessante, relatado pelo Sr. Miale: Ao entrar um dia em sua casa, ele vê um ajuntamento no pátio: era um gato que caíra do quarto andar, e que jazia inanimado na calçada; tentava-se chamá-lo à vida imergindo-o em água. O Sr. Miale mandou conduzi-lo ao seu aposento, friccioná-lo bem com esponja molhada, enxugá-lo, depois do que o estendeu sobre um tapete e o magnetizou; pouco a pouco, o gato volta a si, estende as patas, volta a cabeça, muda de posição, abre os olhos, fecha-os depois, parecendo aguardar mui tranquilamente o resultado da operação. O Sr. Miale duplica os esforços: o gato mexe-se, e parece encorajar o seu salvador com os miados repetidos, em testemunho da satisfação que experimenta; e finalmente equilibra-se nas patas e corre, aproveitando-se da porta aberta, que lhe restitui a liberdade.

207. Os animais doentes possuem um olfato particular para discernirem o que lhes pode fazer bem, e, dando tréguas aos seus hábitos e às suas propensões, prestam-se facilmente a tudo que se exige deles para receberem os cuidados que se lhes dispensa. 

Tive ocasião de verificar esse fato muitas vezes. Conheci uma cachorrinha de raça escocesa, de nome Fly, tão detestavelmente brava, que ninguém podia aproximar-se dela sem correr o risco de receber uma dentada; atordoava com os seus latidos quando alguém chegava ou partia, e acompanhava-o até a porta com as mesmas demonstrações; ninguém podia fazer-lhe uma carícia, principalmente quando ela estava no colo da sua patroa. Este animalzinho veio a cair doente, e como, apesar dos seus defeitos, fosse tratada com muito mimo, a sua indisposição despertou muitos cuidados. Tentei magnetizá-la, a fim de acalmar as preocupações da sua dona, que tinha por ela as ternuras de uma mãe; mas, conhecendo a índole do animal, dispus-me a isso com o maior receio. Foi grande a minha admiração quando, em lugar da recepção que esperava, notei que Fly deixava-se tocar, virar e revirar, como eu julgava conveniente, e desde esse momento dignou-se fazer-me um acolhimento alegre, como se guardasse reconhecimento pelo serviço que eu lhe havia prestado. 

Tive ainda ocasião de tratar de uma cadela felpuda que, em consequência da enfermidade dos cachorrinhos, ficara paralítica na parte posterior do tronco. O veterinário, tendo sido consultado, disse que o mal era incurável, com grande desgosto da sua jovem dona, filha de um dos meus bons amigos. Compadeci-me de seu grande desespero, e empreendi essa cura que, com grande contentamento geral, foi coroada de pleno resultado: no fim de algumas semanas, a cadela estava tão viva e petulante, como a mais esperta das de sua espécie. O que houve de particularmente tocante neste fato foi a maneira pela qual o pobre animal acolhia os meus cuidados: não somente fazia-me festa todas as vezes que me via, mas prestava-se com uma boa vontade cômica a tomar todas as posições que eu julgava dever dar-lhe, como se compreendesse que eu lhe trazia a saúde. Quando começou a caminhar, por si mesma, vinha exigir a sua sessão, procurando não esquecer o momento em que, como de costume, se a tratava. Confesso que, por meu lado eu tomava tal interesse no tratamento, que teria tido um verdadeiro remorso de faltar para com ela ao meu compromisso tácito. Efetivamente, experimenta-se uma verdadeira satisfação em magnetizar os animais, porque com eles tem-se imediatamente a prova da ação benéfica do magnetismo; a plena confiança que mostram esses seres instintivos, anima e induz a levar-lhes auxílio e socorro; não se sofre da parte deles esses movimentos de dúvida, hesitação e incredulidade encontrados nos homens que, mui frequentemente, pagam os vossos cuidados com a mais negra ingratidão. “Curei muitos enfermos – diz Aubin Gauthier –; alguns renegaram-me, outros evitaram-me; a gratidão para eles é um fardo; os animais, pelo contrário, são todos reconhecidos!” “Os irracionais – já Sêneca o havia dito – são mais sensíveis aos benefícios que os homens!” 

208. Apesar das inúmeras curas obtidas sobre os animais pela ação magnética, certas pessoas, atribuindo essas curas a simples coincidências, poderiam ainda levantar dúvidas acerca da eficácia dessa ação, se numerosas experiências não tivessem desde muito tempo demonstrado que ela é um fato real e puramente físico. 

Em 1843, na sala Valentino, perante mais de 1500 pessoas, o célebre magnetizador La Fontaine deu uma prova evidente e que não podia dar lugar a nenhuma suspeita de fraude. Adormeceu um cão, caçador de lebre, fazendo-o entrar no estado cataléptico. Desde os primeiros passes, houve da parte do público incrédulo e inclinado à malevolência, uma verdadeira explosão de debiques e vaias. Chamava-se o animal, procurava-se desviar-lhe a atenção e impedir que o efeito se produzisse; mas, quando se viu a cabeça do cão inclinar de lado e o animal cair rígido como se estivesse morto, a atenção pública tornou-se profunda e o silêncio restabeleceu-se na sala. Diversas pessoas foram chamadas para comprovarem o fenômeno: aproximaram-se do cão, enterrou-se-lhes alfinetes nas carnes, disparou-se um tiro de pistola ao seu ouvido e o cão não se mexeu; era um cadáver, e quando, alguns momentos depois, o magnetizador arrancou-o desse estado letárgico, houve uma verdadeira ovação: a ação magnética sobre os animais manifestava-se a todos, como um fato bem real. 

Já no ano 1840, em Tours, e num estabelecimento zoológi-co fora da cidade, La Fontaine havia feito, num leão, uma experiência interessante diante dum público numeroso: detendo-se junto da jaula, fixou o olhar sobre o animal e obrigou-o a fechar os olhos. Quando, depois de vinte minutos de passes à distância, ele julgou o sono bastante profundo, abalançou-se com mil precauções a tocar a pata que se achava junto das grades, depois picou-a, e vendo que havia insensibilidade, levantou-a, tocou em seguida a cabeça do animal, e finalmente introduziu sua mão na garganta, com grande pasmo das pessoas presentes. Satisfeito com o que produzira, La Fontaine julgou dever despertar o leão, e fez-lhe passes de dispersão. O leão abriu os olhos, levantou-se, sacudiu a juba e recuperou os seus hábitos, passeando ao longo da jaula.

Terapêutica Magnética - MANUAL TÉCNICO 42

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205. Para se magnetizar a si mesmo empregam-se os processos comuns, imposições, passes, massagens e insuflações, isto é, toca-se fazendo imposições das mãos, ou apresentando-as à distância, ou fazendo-se fricções ou passes, ou soprando-se frio ou quente. Atua-se sobre o conjunto do organismo impondo-se suces-sivamente as mãos sobre a cabeça, o estômago, os rins e o ven-tre, fazendo-se seguir estas imposições de longos passes lentos do alto do tronco até aos pés. Atua-se localmente, por meio de ações parciais sobre todas as regiões ao alcance da mão ou do sopro. 

No primeiro caso restabelece-se o equilíbrio geral perturbado dando mais tensão ao circuito vital, no segundo atraem-se as forças vitais e duplica-se a atividade das correntes por toda a parte em que se impuser a mão. Cumpre partir-se deste princípio – que o equilíbrio vital depende essencialmente da harmonia que existe entre as correntes centrífugas e as correntes centrípetas. 

O ser organizado, em perpétua troca com o meio em que é chamado a viver, não chega a manter a integridade da sua tonalidade vital senão pela preciosa faculdade que possui de reagir, de maneira permanente, contra as correntes externas que o cercam e de equilibrar-se com elas; a sua vitalidade é o resultado de duas forças contrárias, uma interna, a outra externa; a sua saúde é o ponto de equilíbrio desse antagonismo; ele recebe do meio ambiente, restitui a esse meio o que recebeu, em outros termos, condensa e dispersa alternadamente; e o movimento de dispersão ativa o de condensação, é a despesa ou o estrago que prepara a receita ou a reparação; e é assim que a morte entretém o fogo da vida. Pode pois dizer-se, “quem dá, recebe” e eis de que modo, longe de esgotar as suas forças no ato de magnetizar, como era natural acreditar-se, retira, pelo contrário, desse ato um grande benefício para si mesmo ativando em si a dupla corrente da vida. É sobre esse princípio de perpétua troca, que constitui o equilíbrio oscilatório da vida, que repousam as vantagens do emprego da cadeia no tratamento comum; existe entre os doentes que formam a cadeia uma dupla transmissão: ao receber, cada um dá, e dando, cada um recebe. 

Na magnetização direta acontece o mesmo: o magnetizador, dispersando os seus eflúvios magnéticos sobre o seu doente, ativa por esse ato a corrente contrária ou a condensação e recupera assim na proporção do que dá. 

Esta maneira de considerar a vida do homem, como sendo o resultado de um jogo regular das correntes, se acha expressa numa obra chinesa, que data do século XVII: o Thang-Seng, ou a arte de proporcionar para si uma vida sã e longa. O autor dessa obra distingue no homem três espécies de forças a que chama os espíritos vitais: o Tsing, que corresponde às forças vegetativas; o Ki às forças animais; o Chin, às forças espirituais. É importante, diz ele, não se dissiparem esses três princípios da vida humana, quer pelo uso imoderado dos prazeres dos sentidos, quer por esforços violentos, quer por emoções muito vivas ou grande contenção de espírito. Ele dá, para conservar o justo equilíbrio dos espíritos vitais, certas prescrições higiênicas, que devem por o homem em boa relação constante com as correntes externas. São as seguintes: Sede sóbrio; qualquer excesso esgota os espíritos vitais. Não caminheis ininterruptamente durante muito tempo. Não vos conserveis horas inteiras de pé e imóvel. Não vos demoreis sentado por muito tempo. Não dormi além do necessário. Quando estiverdes despido e prestes a recolher-vos ao leito, tomai, com uma das mãos, um de vossos pés, e com a outra, atritai-lhe a planta com força, de maneira a convergir para ali um grande calor. É um meio eficaz de ativar os espíritos vitais durante o sono. Uma vez no leito, adormecei o coração, para repelir qualquer pensamento que pudesse desviar o sono. Deitai-vos do lado direito, dobrai um pouco os joelhos e adormecei nesta posição; ela impede os espíritos vitais de se dissiparem durante o sono. Ao dormirdes, não tomeis a atitude dum morto, isto é, não vos deiteis de costas nem conserveis os braços cruzados sobre o peito. Cada vez que despertardes, estendei-vos no leito para tornar mais livre o curso dos espíritos vitais, ou melhor, levantai-vos por um momento e fazei duas ou três fricções ao longo do corpo do alto do peito até aos pés e sobre os rins e deitai-vos de novo. Levantando-vos, quando tiverdes despertado, fazei com a mão várias fricções sobre o peito na região do coração. Evitai cuidadosamente o ar encanado, como se fora uma flechada. No inverno, evitai o calor excessivo, e no estio não procureis o extremo frescor. Na primavera, quando a natureza trabalha e fermenta, regulai-vos por ela, e entregai-vos a um exercício moderado, porém frequente.

Terapêutica Magnética - MANUAL TÉCNICO 41

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Da automagnetização

203. Na magnetização isolada ou na magnetização em comum, mostramos a influência curadora que um indivíduo pode exercer por suas radiações sobre um ou muitos de seus semelhantes. Esta ação de um homem sobre outro ou sobre vários outros, depois de ter sido por muito tempo contestada, está hoje correntemente admitida, senão em todo o seu alcance curador, ao menos quanto a certos fenômenos fisiológicos que a própria ciência oficial decidiu-se a admitir. 

Pode-se, portanto, encarar como certa a ação magnética do homem sobre seus semelhantes. Resta saber se ele a tem sobre si mesmo. Sobre este ponto a incerteza não pode durar muito, porque, com exclusão de qualquer teoria, é muito fácil formar uma opinião a respeito. Experimentando sobre si mesmo, não tardará a verificar pela experiência se existe ou não uma ação. Nosso primeiro ato, no sofrimento, é levar instintivamente a mão ao ponto em que sofremos e muitas vezes encontramos certo alívio com uma leve pressão na parte afetada. Se, em vez de agir instintivamente, soubermos estudar as nossas sensações e dirigir convenientemente a nossa ação, adquiriremos bem depressa a certeza de que a ação magnética do homem sobre si mesmo é incontestável. 

Mesmer não falou da ação do homem sobre si mesmo. Os Srs. de Puységur, d'Eslom, de Bruno, etc., também não falam a esse respeito. 

O Sr. Deleuze, em sua Instrução Prática, fala dela muito por alto, como de um fato que pode existir, porém que ele não verificou. Os Srs. Birot e Dr. Rouilier são os primeiros que tratam a fundo do assunto em seu livro: Recherches sur la faculté de se magnètiser soi-même. E Aubin Gauthier, no seu trabalho Introduction au magnetisme, tratando explanadamente desse assunto sob o título L'Action de l'homme sur lui-même, conclui deste modo: “Devo à ação magnética exercida sobre mim mesmo, a conservação de minha saúde muitas vezes comprometida por longos e penosos trabalhos.” 

204. Os casos em que se pode empregar a automagnetização são forçosamente restritos, porque, para agir sobre si mesmo, não é necessário ficar em estado de prostração, nem num estado de exacerbação e desordem geral. Se o indivíduo for profundamente anêmico ou estiver atacado de febre ardente, não poderá pensar em dar aos outros uma saúde que ele não tem. Com mais forte razão, nada se pode fazer sobre si mesmo. Neste caso, deveria recorrer ao seu semelhante e pedir-lhe auxílio e assistência. Porém, fora dessas circunstâncias excepcionais, quantas oportunidades de sustar em seu começo as indisposições ligeiras, e desse modo evitar as complicações que lhes são consequentes! 

As mudanças de estações, as variações de temperatura, a fadiga, as emoções morais, as decepções conspiram a todo o momento contra a nossa tensão vital; as nossas funções periclitam; sobrevêm obstruções, congestões, perda de apetite, constipações, dores de cabeça; uma transição brusca do calor para o frio, ou do frio para o calor, um golpe de ar, uma cólera violenta, congestionam subitamente o cérebro, irritam a garganta, embaraçam os brônquios ou o estômago, revolucionam os intestinos; um acidente se dá, uma queimadura, uma queda ou um corte, que fazer? 

A medicina, para preencher essas eventualidades, prescreve purgantes, vomitórios, vesicatórios, sanguessugas, tapsias, pedilúvios, cataplasmas, compressas, antipyrina, etc. Pode evitar-se tudo isso concentrando-nos cinco minutos e colocando a mão sobre a parte doente ou sobre a sede da função e, enquanto uma afecção local não absorver as nossas faculdades físicas e morais, enquanto o mal ficar circunscrito a uma região ou a um órgão, poderemos magnetizar-nos a nós mesmos, e arrancar (é o caso de dizer-se) a dor e o mal com a mão. 

Tem-se dado comigo mais de cem vezes, e diariamente ainda me acontece, restabelecer em poucos momentos as minhas funções perturbadas por qualquer circunstância fortuita, e é graças à automagnetização, não hesito em acreditar, que me tem sido possível prosseguir, sem um só mo-mento de parada, durante mais de vinte anos, trabalhos bastante penosos e difíceis; tenho evitado muitos defluxos, fazendo-os abortar em seu começo e tenho atenuado conside-ravelmente as conseqüências de acidentes tais como quedas, ou queimaduras (136).

Terapêutica Magnética - MANUAL TÉCNICO 40

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197. Estando formada a cadeia, assim como acaba de ser dito, o operador coloca-se em face do centro, na distância necessária para abranger num relance o conjunto da cadeia. Recomenda silêncio, calma e atenção, concentra-se profundamente durante alguns instantes; depois, estendendo o braço direito para os doentes, projeta na direção deles as radiações magnéticas, por meio de imposições e passes à distância (97, 100). 

A faculdade de concentrar-se e de radiar não é dada a todos, no mesmo grau. Para dirigir bem uma cadeia, é preciso possuir essa qualidade em supremo grau. O homem que sabe querer com energia, com perseverança, com teimosia mesmo, é o melhor dotado para organizar uma cadeia (33). Todo o bom êxito depende do poder moral com o qual ele condensa em seus focos nervosos as emanações irradiantes, que deve em seguida projetar por toda parte em que quiser acender a faísca da vida. Assim se ateia o incêndio debaixo dos raios convergentes dum foco lenticular. Essa energia não deve exprimir cólera, mas uma vontade intensa sem violência nem rigidez: toda rigidez neutraliza os efeitos, consumindo o princípio que deve fazê-lo nascer. Pelo contrário, convém um certo abandono e, enviando às extremidades o móvel ou a força necessária para levantar um fardo considerável, é preciso não ter que mover senão o peso dos seus membros. É o excesso nesta força que vai influenciar ao longe os pacientes e produzir a eclosão das correntes na cadeia. 

O operador deve considerar-se como uma simples máquina distribuindo à distância irradiações (8). Deve saber que sua vontade impele essas irradiações de seus centros nervosos ao longo dos nervos até aos limites da pele, e que daí são projetadas sobre os corpos aos quais se as dirige (13 a 16). Cumpre, pois, regularizar a intensidade da vontade de modo que as irradiações não se percam inutilmente no espaço e obedeçam à direção que se lhes quer imprimir; e, como a máquina humana não poderia fornecer de maneira contínua tão elevado grau de tensão, é preciso que se a detenha muitas vezes sustentando-lhe a ação por algum tempo de repouso. (Barão Du Potet) 

198. Debaixo da ação irradiante do operador, as correntes se manifestam quase imediatamente na cadeia (11 e 12). Somente os efeitos, por vezes instantâneos, são mais ou menos aparentes, mais ou menos prontos ou tardios. Quando se magnetiza diversos doentes conjuntamente, diz o Sr. Ragazzi (que pôs em prática com resultado durante muitos anos em Haia, Holanda, a cadeia como meio curador), nota-se que sob a ação da corrente sentem todos um efeito particular sobre a parte doente: em uns a dor aumenta, em outros diminui. 

Muitos sentem dores que não tinham há muitos anos. O que se passa então? Será o magnetismo que produz a dor? Não, pois que ele dá vida! É que havia ali um mal que a natureza não tinha podido reparar. O magnetismo, despertando as ações vitais, simplesmente ajudou a natureza a recomeçar o seu trabalho inacabado. Eis aí, diz o Sr. Ragazzi, um fato que verifico diariamente sobre milhares de doentes que trato por esse processo. (Ragazzi) 

199. Pode acontecer que um doente, sob a influência das correntes desenvolvidas na cadeia, caia em crise ou fique sonambuliza-do. Cumpre deixá-lo nesse estado, enquanto não se torne uma causa de perturbação ou de desordem. Nesse caso retira-se o doente da cadeia para um aposento próximo da sala comum, onde se lhe administram cuidados particulares. 

200. É útil, no tratamento em comum, fazer-se ajudar por um ou mais auxiliares, principalmente se for grande a cadeia. Mas esses ajudantes, escolhidos com critério, devem compenetrar-se bem de que é preciso renunciar a qualquer iniciativa pessoal, cingir-se cegamente às instruções do mestre, só empregar os seus processos, e nulificar-se completamente diante da sua vontade soberana. Um acólito que se não conformasse com essas regras absolutas seria antes um empecilho do que um auxílio útil: seria preferível pô-lo de parte. 

201. A cadeia é, de todos os meios, talvez o mais poderoso para por em jogo a força magnética e tornar efetivas as suas manifestações. Se de fato quiser-se considerar o corpo humano como uma pilha composta de número infinito de elementos nervosos, que por sua ação recíproca desenvolvem correntes e radiações, compreende-se o que uma máquina composta de várias pilhas desse gênero, postas em atividade por um impulso dado, possa produzir em potência de tensão. A cadeia aparece então como uma verdadeira bateria magnética, onde a energia das trocas aumenta com o número dos elementos compostos que a formam. (12) 

202. A cadeia ordinária é, como acabamos de ver, a reunião de um certo número de doentes atuando respectivamente uns sobre os outros de maneira inconsciente e esperando, no estado de neutralidade, os efeitos magnéticos que devem desenvolver as correntes. Também se pode formar uma cadeia de pessoas sãs, unidas num mesmo intuito e numa mesma intenção ativa para aliviar um doente. Isto, em certas circunstâncias graves, pode ser um precioso auxiliar para suprir a insuficiência de uma ação isolada e para despertar ou vibrar a vida prestes a escapar-se de um corpo moribundo: é o que se chama a cadeia comunicativa. 

A formação de uma cadeia comunicativa apresenta algumas dificuldades, e todos os que a compõem devem estar sinceramente animados do desejo de praticar o bem, profundamente dedicados ao doente e unidos de intenção e de coração àquele que os dirige. Sob tais condições essenciais não se pode, de maneira alguma, contar com mercenários ou pessoas de fé vacilante, cujo ceticismo, sempre pronto à crítica ou à negação dos fatos, dificultaria a ação magnética em vez de desenvolvê-la. 

A cadeia comunicativa forma-se com o mesmo cuidado que a cadeia ordinária (195). Somente depois de haver estabelecido a relação (49), o condutor recomenda a cada pessoa que compõe a cadeia unir-se pela mão. Em seguida, ele toma a extremidade inicial da fila a fim de atuar, por meio de imposições e passes com a mão que se conserva livre, sobre o doente, como em toda magnetização isolada, recebendo de todos os elementos da cadeia um reforço que duplica a potência da sua corrente.

Terapêutica Magnética - MANUAL TÉCNICO 39

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Da magnetização em comum, ou tratamento em cadeia

194. O homem possui não somente a faculdade de influenciar a um dos seus semelhantes por suas radiações magnéticas (18), como ainda pode estender essa influência sobre várias pessoas ao mesmo tempo. 

Quando não houver tempo para tratar individualmente um certo número de doentes, pode-se reuni-los e tratá-los em comum: é o que se chama cadeia. 

195. Forma-se uma cadeia de diferentes maneiras: 

1º) Cadeia em fila – Colocam-se cadeiras, uma por detrás da outra, o mais próximo possível, e faz-se sentar os doentes em fila; o operador conserva-se de pé, diante do primeiro doente, e atua daí por meio de imposições e passes à distância (97, 100), sobre a fila toda inteira. O magnetismo se comunica de um para outro com uma prontidão notável, sem cessar de ser eficaz. Particularmente empreguei esse processo em Montpellier, onde estive tão atarefado que me foi inteiramente impossível magnetizar isoladamente. Com uma cadeia formada desse modo para dez doentes, eu consagrava ordinariamente 50 minutos. (Barão Du Potet) 

2º) Cadeia formada com contato – Colocam-se cadeiras em círculo, uma contra a outra, e faz-se sentar os doentes unidos pelas mãos e tocando-se com o joelho e a extremidade dos pés. Nesta posição, diz Mesmer, os doentes, por assim dizer não formam mais que um corpo contínuo, no qual circula ininterruptamente a corrente magnética. O operador conserva-se no centro do círculo atuando nos doentes conjuntamente ou em cada um por sua vez, quer por meio das ações à distância (97, 100), quer com uma vareta de madeira, de aço ou de vidro. 

3º) Cadeia aberta, sem contato – As cadeias em fila ou fechadas, com contato, apresentam em suas disposições certos inconvenientes: em fila, não se pode admitir no máximo senão uns dez doentes e o operador está mal colocado para exercer a sua ação e a sua vigilância; em círculo acontece o mesmo, por isso que o operador volta forçosamente as costas a uma parte da cadeia. Além disso, esse contato muito íntimo das mãos e dos joelhos (inteiramente inútil para a provocação do fenômeno) pode inspirar às pessoas chamadas para formarem a cadeia um sentimento de mal estar ou repulsão. A melhor disposição para uma cadeia, é portanto a cadeia aberta e sem contato. Colocam-se assentos na distância de 25 ou 30 centímetros uns dos outros, sobre uma linha curva, e o operador, em pé no centro desse semicírculo, conserva-se a boa distância, de modo a poder abranger num relance a linha dos doentes, de uma ala à outra. Se bem que não exista ponto algum de contato entre os diferentes elos dessa cadeia, as correntes se propagam rapidamente de uma extremidade à outra, como na cadeia em fila. Pode-se entretanto, se isto aprouver, estabelecer um laço entre os diferentes elos. Como as cordas de fio de cânhamo, e principal-mente de lã, são excelentes condutores da força magnética, instala-se diante dos doentes, na altura de apoio, uma forte franja de lã torcida e sustentada, a intervalos, por suportes de madeira ou de vidro fixos ao soalho, e cada uma das pessoas que compõem a cadeia apóia as duas mãos sobre essa rampa improvisada. Essa disposição, estabelecendo inteiramente uma comunicação mais completa entre os anéis da cadeia, tem principalmente a vantagem de satisfazer mais plenamente o espírito dos doentes, os quais, por esse laço aparente e material, sentem-se de algum modo mais intimamente unidos entre si. 

Os reservatórios magnéticos, tais como cubas, árvores magnéticas, não tinham outro intuito senão desenvolver, esforçar as correntes das cadeias que os doentes formam em derredor deles. 

Mesmer reunia todos os dias um grande número de doentes em torno de sua cuba. O Sr. de Puységur chegava a reunir até 130, ao mesmo tempo, em torno das famosas árvores de Bezancy, de Beaubourg e de Bayonna, de que os anais magnéticos assinalam numerosas curas.

196. A composição e a direção duma cadeia exigem cuidados particulares. 

A primeira das condições é não admitir no tratamento em comum nenhuma moléstia que possa comunicar-se, produzir desordens intoleráveis ou impressionar desagradavelmente os assistentes, tais como epilepsia, úlceras, moléstias da pele, etc. Para compor a cadeia, o operador começa recebendo em particular cada pessoa, pondo-se em relação com ela durante um ou dois minutos (49). Feito isto, introduz sucessivamente cada uma delas na cadeia. Pode-se reunir assim, dez, vinte, trinta pessoas ou mais, se o local o permitir. Uma vez formada a cadeia e em ação, não se deve introduzir mais elementos novos, nem admitir curioso algum ou espectador estranho, nem deixar tocar nenhum dos doentes. Além disso faz-se mister não participar da cadeia ne-nhum elemento heterogêneo, suscetível de perturbar as correntes. Se alguém, dizendo-se doente ou amigo de um doente, mas visando satisfazer a sua curiosidade, pede para fazer parte da cadeia, pode até certo ponto impedir-lhe os bons efeitos, desde que seja incrédulo ou mal intencionado.

Terapêutica Magnética - MANUAL TÉCNICO 38

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193. Geralmente, começam-se as primeiras imposições e os primeiros passes com as duas mãos; mas, se assim se fosse operando até ao fim da magnetização, haveria indubitavelmente fadiga em breve tempo, e perdia-se desse modo uma grande parte do poder irradiante, em detrimento da pessoa a quem se presta cuidados. 

Qualquer que seja a força de que sejamos dotados, convém, pois, após os primeiros passes, magnetizar apenas com uma só mão alternadamente. Esta é a opinião de Aubin Gauthier, Deleuze, La Fontaine, Du Potet e muitos outros. 

Certos magnetizadores, os polaristas entre outros, reconhecendo em cada mão uma influência magnética particular, são de opinião que não se pode indiferentemente magnetizar com a mão direita ou com a mão esquerda, anulando uma o que a outra faz e reciprocamente. Essa teoria dos polaristas está em contradição com tudo o que ensina a experiência. 

Nenhum magnetizador, praticando realmente o magnetismo curativo, verificou, nos mínimos fatos, que pudesse existir uma diferença qualquer na virtude curadora das duas mãos e, entretanto, os polaristas, em apoio de seus conceitos, provocam nos pacientes certos efeitos que parecem justificar a opinião por eles emitida. Eu mesmo não tendo podido, durante mais de vinte anos de prática, observar um só fato que me permitisse estabelecer diferença entre o emprego das duas mãos, quis ter a chave desta divergência de opiniões, e empreendi uma série de experiências que acabaram dando-me a decifração do enigma. 

A fim de evitar todas as causas de erros, emanadas muitas vezes da fugaz lucidez dos sonâmbulos ou da tendência à simulação, servi-me de um corpo inerte que não podia enganar-me: o pêndulo explorador, sobre o qual precisamente nesta época eu experimentava as propriedades magnéticas das substâncias minerais e vegetais. Não posso dar aqui os pormenores dessas experiências, realizadas em maio e junho de 1886, experiências que fize-ram o objeto de uma comunicação do Sr. Chevreul à Academia das Ciências, no mês de agosto do mesmo ano; comprometo-me a publicar ulteriormente a narrativa completa. Posso somente afirmar desde já que, se as leis da polaridade existem, as aplicações que os polaristas pretendem fazer, sob o ponto de vista prático, do magnetismo, são falsas. 

O pêndulo acusa com muita precisão: 

1º) Que no corpo humano, como em qualquer corpo da natureza, existem dynamides de ordens diferentes, uns positivos e outros negativos, produzidos pela diferença das correntes. Assim, a cabeça e o tronco são positivos do lado esquerdo, e negativos do lado direito; os braços e as pernas são positivos do lado do dedo mínimo, e negativos do lado do polegar. 

2º) Que os animais vivos ou mortos apresentam a mesma polaridade que o homem. 

3º) Que os vegetais em plena seiva, ou fanados, são positivos do lado flor, e negativos do lado raiz; e, tal como os ímãs: cada um de seus pedaços apresenta a dupla polaridade; um fruto é negativo do lado do pendúculo e positivo do lado oposto. 

4º) Que as duas polaridades isônomas (ou do mesmo nome), postas em contato (ou simplesmente aproximadas, se a sua energia for bastante), produzem uma repulsão ou contratura, enquanto que as suas polaridades heterônomas (ou de nome contrário), produzem uma atração ou descontratura. 

Todas essas experiências, praticadas em sensitivos vivos pelos polaristas, foram por mim repetidas sobre o meu pêndulo, que se sensibilizou diferentemente sob a influência das correntes polares. Até aqui têm razão os polaristas; mas, onde eles se enganam é quando, abstraindo das circunstâncias em que se produz o fenômeno, tiram daí consequências gerais. Parecem ignorar que as correntes de polarização só se manifestam regularmente nos corpos em estado passivo e que, quando uma influência interna ou externa chega a mudar o estado passivo em estado ativo, tudo se modifica. As correntes obedecem na natureza à hierarquia das forças. 

No homem, por exemplo, existe uma série inteira de correntes polares, que podem manifestar-se em detalhe quando o indivíduo conservar-se neutro, porém a potência de volição sintetiza na ação. Em outras palavras, o homem goza da faculdade de unipolarizar suas correntes pela vontade, e não poderia ser de outro modo, pois a unidade do ser ficaria comprometida. 

Nas experiências que precedem foi conservando passivas e aguardando em estado de completa neutralização as manifestações do pêndulo, que consegui obter todos os matizes de polaridade assinalados pelos polaristas e ainda muitos outros; mas, desde que a minha potência volitiva entrou em ação, tudo mudou, e não somente eu destruía, à minha vontade, todas as manifestações polares, mas ainda conseguia imprimir ao pêndulo todos os movimentos de rotação e oscilação que quisesse dar-lhe. Mantendo cuidadosamente o estado de neutralidade durante a primeira parte das experiências, eu havia deixado livre ação às correntes polares. 

Na segunda parte das experi-ências, fazendo entrar em ação a minha potência volitiva, substituí essas correntes secundárias por uma força superior que as nulificava. E eis de que maneira, apesar dos matizes múltiplos que efetivamente diferenciam os dynamides dos corpos, seja em seu todo, seja em cada uma de suas partes, qualquer corpo organizado, como o corpo humano por exemplo, se unipolariza na ação só pelo efeito da potência volitiva; e é assim que, mau grado a sua bipolaridade real, o magnetizador não tem que se preocupar com a sua polaridade de detalhe, e pode fazer emprego igual de suas mãos. Ele adormece, desperta, provoca contrações e descontrações, tanto com a direita como com a esquerda, e produz à vontade todos os efeitos magnéticos, sem ter de preocupar-se em saber se ele é isônomo ou heterônomo. Ele só tem de pôr em ação a sua potência volitiva, que unifica a sua emissão irradiante e a conduz com igual segurança ao seu paciente quer de face, quer de lado, pela parte posterior, de perto ou de longe, mesmo às vezes, de um compartimento para outro, através das paredes e sem observá-lo. Neste ponto é que se acha em desacordo a prática magnética com a teoria polarista, e era útil lembrá-lo. 

Muitas vezes tive ocasião de ouvir Du Potet dizer, nos últimos anos de sua vida, quando se lhe pedia opinião sobre estas questões: “Cessemos de recorrer a essa interminável logomaquia do fluido e do não fluido, da vontade sem fluido, vibrações da polaridade, etc.; desviemos essas teorias, que bem podem ter às vezes aparência de verdade, porém que são sem fundamento algum real e distraem seguramente o espírito daqueles que magnetizam; evitemos particularizar e especificar o mais possível: isso seria sacrificar uma parte da verdade à necessidade de fazer uma ostentação fútil da ciência.” 

Finalmente, o Sr. Dr. J. Ochorowicz, que fez um estudo aprofundado acerca da sugestão mental, assinalando os hábitos inconscientes dos sonâmbulos, de que são tantas vezes vítimas os experimentadores, diz a esse respeito: “Certos magnetizadores encontraram uma multidão de polaridade no corpo humano. Tive oportunidade de apreciar bem essas experiências, e elas são perfeitamente concluden-tes: o polegar atrai, o dedo mínimo repele, etc. O inconsciente, tendo aprendido a lição, não se contradiz mais; somente, solicitando-se-lhe um pouco (mesmo sem palavras), obtendes facilmente o inverso, e podeis desde logo instaurar em toda a sua integridade uma polaridade qualquer, segundo um plano fantástico de antemão traçado. Bastam três sessões para criar um hábito de reação.” (J. Ochorowicz: A sugestão mental)